A IMAGINÁRIA RELIGIOSA
NO BRASIL

Nada mais cômodo, em verdade, do que ter instalada nos oratórios, vigilante e atenta à mais leve súplica, toda essa corte celeste pronta, ao primeiro sinal, a sair veloz singrando o espaço e levar aos pés do Criador a mensagem pueril e nossas veleidades. Madonas talhadas em madeira e pintadas; fundidas ou cinzeladas em prata; esculpidas no marfim; saídas do barro e do gesso são todas o centro da mais requintada gravitação devocional...

A primeira imagem religiosa que apareceu no Brasil, data da época do descobrimento, chegou com Pedro Álvares Cabral. Foi uma imagem de Nossa Senhora da Esperança, que hoje de encontra na Quinta do Belmonte, em Portugal. Outra notícia a respeito da Imaginária no Brasil e a de Diogo Álvares Correia, o Caramuru, invocando uma Nossa Senhora encontrada nas costas da Bahia, talvez vítima de um naufrágio, e dedicando-lhe uma ermida. Em 1550 D. João III, o Piedoso, mandou de Portugal para a cidade de Salvador a magnífica imagem de Nossa Senhora das Maravilhas, que hoje pode ser apreciada na Catedral Metropolitana. Em seguida é registrada a chegada da imagem de Nossa Senhora da Penha, em Vitória, no Espirito Santo, trazida pelo Frei Palácios.

Somente em 1560 vamos encontrar as primeiras imagens realmente brasileiras, feitas no Brasil, com material da terra e por artistas brasileiros. João Gonçalo Fernandes, na Bahia, modela em barro as imagens de Nª Sª da Conceição, de Itanhaém, e de Nª Sª do Rosário, de São Vicente. Entre os anos de 1585 e 1616, Frei Francisco dos Santos fez santas, sempre de barro, para Salvador e Olinda. Nos anos seguintes apareceram grandes artistas, os padres franciscanos, jesuítas e notadamente os beneditinos; entre eles Frei Agostinho da Piedade marca uma verdadeira época na imaginária brasileira. Frei Agostinho de Jesus e Frei Domingos da Conceição, foram os mestres criadores das mais belas peças de entalhe do Mosteiro de São Bento. De autoria de Frei Domingos é a imagem do Patriarca São Bento, que juntamente com Santa Escolástica e Nª Sª do Monte Serrat, titular do altar, completam o imponente altar-mor beneditino.

Também beneditino e igualmente famosa é a figura de Frei Agostinho de Jesus, autor de inúmeras imagens de barro cozido, destacando-se a belíssima Nª Sª do Rosário (1645) que se encontra na matriz de Parnaíba, em São Paulo. No museu da Cúria Metropolitana, na capital paulista, encontra-se a belíssima Sant’Ana com Nossa Senhora Menina (1650) e uma excepcional Nª Sª da Purificação. É dele também a curiosa imagem de São Bento que está no nicho do alpendre do Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro e Nª Sª de Monte Serrat, na cidade de Santos.

Foi pródiga na arte imaginária o Estado da Bahia e Salvador que, como capital do Brasil colonial, era o centro de convergência para as riquezas do país. Na Bahia apareceram grandes escultores: Francisco Fernandes, João da Silva, Miguel da Costa, Manoel Inácio da Costa, o autor do excelente São Pedro de Alcântara ( Igreja de São Francisco). Ainda hoje, em Salvador, pululam fabricantes e restauradores de imagens. Ali se encontram os melhores "encarnadores", isto é, aqueles que conseguem imprimir à pintura moderna o "sabor" colonial.

Também foi abundante a arte imaginária em Minas Gerais, cujo ouro e diamantes deram à capitania grande destaque. Grande dentre os grandes, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho,* autor de peças magníficas e glória da arte brasileira. Das centenas de peças de sua autoria, destaque para os Profetas que se encontram no adro do Santuário de Bom Jesus do Matosinhos, na pacata e serena Congonhas do Campo.

No Rio de Janeiro vamos encontrar a figura de Valentim da Fonseca e Silva, * conhecido como Mestre Valentim, autor de inúmeras peças religiosas, assim como também de grandes e belos monumentos.

Os artistas e mestres da arte religiosa, citados na matéria, foram aqueles que assinaram seus trabalhos ou fizeram suas peças sob o olhar vigilante de um empreiteiro, e portanto não se perderam no anonimato. Mas existem as imagens simples, às vezes ricas, que por aí estão, apenas com uma ou outra característica das regiões brasileiras. Determinar as origens desses imagens requer uma pesquisa demorada, um assunto para outra edição.

* A Relíquia já publicou, em edições anteriores, as histórias da vida e arte dos Mestres Aleijadinho e Valentim.

Fonte: Antiguidades do Brasil, de Paulo Affonso de Carvalho Machado e Manual do Colecionador de Antiguidades, de José A. Santos.

Volta para o início
Voltar à Página Principal