A Rota da Seda

Maravilhosos terraços da província de Shaanxi

Ficaram para trás as Montanhas de Sal e a região dos Fogos Mágicos e o Vale das Árvores cantantes e o Deserto dos Perigos, onde nenhum rio cantava. E a caverna do Velho da Montanha, que enfeitiçava os jovens cavaleiros e os transformava em assassinos para cumprirem suas ordens. E atravessaram a Cidade das Belas Feiticeiras, onde muitos viajantes se deixavam ficar, até serem despojados de suas ambições e de suas vidas. E deixaram atrás a cidade de Tangut, e depois léguas e léguas de pestilência, desolação e morte. E finalmente chegaram ao Grande Deserto e a uma duna onde se avistava o riso das caveiras - toda uma caravana que sucumbira ao calor do deserto.

Desde a antiguidade, passando pela Idade Média até o século XV, quando o navegador Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para as Índias, a única comunicação ininterrupta da China com a Ásia Central e com o Ocidente era feita através da Rota da Seda, um caminho de 7 mil quilômetros que começou a ser trilhado em data imprecisa, mas que no final do período Han (206 a.C. a 220 d.C.) já ia da China até a península itálica.
Tudo começou por volta dos anos 134-140 a.C., quando a florescente economia chinesa já não cabia mais entre os limites das muralhas e o vale do rio Yang-tse. Foi quando o imperador Wou-Ti (Filho do Céu) enviou Tchang-Kien com a missão de firmar uma aliança com o grande país dos Yue-Tche, contra os terríveis Hunos, abrindo assim um caminho a oeste para que os chineses pudessem avançar. Tchang-Kien partiu e só retornou 13 anos mais tarde. Neste período, foi preso e torturado. Conseguiu fugir 10 anos depois e voltou para a Corte sem cumprir sua missão oficial.

Cidade de Xi'an, ponto de partida da rota da seda.

O imperador não conquistara a aliança desejada, mas soube utilizar as informações fornecidas pelo seu emissário, entre elas as lendas dos cavalos celestiais e lugares que a China nunca sonhara existir: Ngan-si (Pérsia), e a alguns milhares de quilômetros a oeste da Pérsia, Li-Kien (Roma). Dos relatos da viagem de Tchang-Kien, a China muito se utilizaria, mesmo depois da sua morte. Por ele viria nascer uma das mais célebres rotas de comércio de que o mundo se valeria e por ai percorreria o segredo mais bem guardado que o homem conheceria: a seda.
Era preciso muita paciência e destemor para realizar perigosas viagens que duravam anos, enfrentando montanhas, estepes, desertos, planícies desoladas. Em compensação o viajante também vislumbrava paisagens belíssimas e panoramas magníficos. Partindo da região central da China, uma cadeia de intermediários levava, além da preciosa seda - um monopólio chinês até o século III da Era Cristã -, pinturas, papel, peças de laca, escultura, ameixas, pêssegos e as tão faladas especiarias. Na viagem de volta os mercadores traziam vidros, cristais, pentes de tartaruga, frutas como uva e romãs, pepinos, azeitonas, e animais e aves tipo camelos e pavões. Nas épocas de festejos as caravanas também traziam artistas de circo, dançarinos e músicos para a cidade imperial. Também pela rota existia o encontro de idéias, valores e crenças e o maior exemplo é o budismo que, graças aos caminhos da rota, teve extraordinário impulso.

Mapa da Rota de Marco Polo

As viagens com destino a Veneza e Roma, principais cidades consumidoras da seda e outros produtos chineses, invariavelmente começavam na cidade de Xi'an, capital da província de Shaanxi, que na antiguidade era conhecida por Tch'ang Nam (cidade da paz eterna). É onde se localiza a tumba do imperador Shi Huang Ti, aquele responsável pela unificação dos impérios. A tumba é guardada pelo famoso Exército de Terracota com figuras em tamanho natural. As caravanas saíam da China Central e atravessavam territórios da extinta União Soviética, Índia, Afeganistão, Paquistão, Iraque, Irã, Síria, Turquia e Egito.
Partindo de Xi'an, os mercadores seguiam na direção ocidental, cortando a província de Gansu e depois mudando o rumo para noroeste, através de Lanzhou, atravessando o Rio Amarelo e parando em Xiahe, uma cidade-monastério. Depois seguiam por Wuwei, Zangye, Jiuquan (Jiayuguan), onde se localiza a fortaleza do mesmo nome, no extremo mais ocidental da Grande Muralha. Essa impressionante fortificação desempenhou um papel importante na rota das caravanas, garantindo segurança e o escoamento das mercadorias, pois além dela ficava a "terra dos nômades", a falta de civilização e o inóspito deserto. Depois os viajantes continuavam pelo passo de Hexi até chegar a Dunhuang e em seguida na região autônoma de Xinjian Uygur. Próximo a Dunhuang localiza-se Turpan, um dos mais importantes lugares de parada e abastecimento da rota. Fica no meio de um dos desertos mais quentes e fundos da China (155m), a segunda maior depressão da terra. Mas ali também tem um oásis, cujo segredo são os canais subterrâneos escavados a mão, através dos quais se transportam, ainda hoje, as águas das montanhas celestiais. Próximo ficam as Montanhas Flamejantes.
A partir de Dunhuang a Rota da Seda podia ser feita por três caminhos diferentes. O mais antigo, chamado rota norte, começava ao sul de Turpan e atravessava as montanhas de Tian Shan até chegar na planície banhada pelo Rio Tarim, onde as caravanas paravam para descansar num oásis. Depois seguiam pelo planalto de Pamir, cortando Korla, Yanga, Aksu e Kashi. Neste local ficava localizado o principal entreposto comercial da Ásia.
O segundo caminho, chamado de rota sul, saia de Dunhuang pelo desfiladeiro de Yanguan, tomando a direção sul, rodeando a montanha de Kunlum e atravessando o deserto de Taklimakan, chegando também a Kashi. A terceira rota e também a última a ser aberta saia de Dunhuang em direção noroeste, passando pela província de Hami, cortando as montanhas Tian Shan e depois seguindo para Oeste, através de Urumqi e Yning, atravessando o Rio Chuhe depois a linha de fronteira para entrar nas terras da extinta União Soviética.
Marco Pólo (1254-1324), que há 732 anos utilizou o sentido inverso da rota da seda para entrar na China, descreveu a aventura no seu famoso livro de viagens. Foi uma jornada de mais de seis anos através das florestas da Europa e sobre montanhas da Ásia. Lugares que nenhum homem branco havia visitado antes. Na viagem, deixaram atrás o pico do Arará, onde Noé ancorara a arca (segundo a Bíblia) e as ruínas da Torre de Babel, onde os pensamentos dos homens tinham sido confundidos por causa de suas demasiadas línguas. E as cavernas dos dragões, e os covis das feras, e as habitações dos selvagens. E chegaram ao Planalto de Pamir, chamado "o teto do mundo", e de lá avistaram muitas outras montanhas e planícies que ainda teriam de atravessar antes de chegar à terra do Grande Khan. Ficaram para trás as Montanhas de Sal e a região dos Fogos Mágicos e o Vale das Árvores cantantes e o Deserto dos Perigos, onde nenhum rio cantava. E a caverna do Velho da Montanha, que enfeitiçava os jovens cavaleiros e os transformava em assassinos para cumprirem suas ordens. E atravessaram a Cidade das Belas Feiticeiras, onde muitos viajantes se deixavam ficar, até serem despojados de suas ambições e de suas vidasss. E deixaram atrás a cidade de Tangut, e depois léguas e léguas de pestilência, desolação e morte. E finalmente chegaram ao Grande Deserto e a uma duna onde se avistava o riso das caveiras - toda uma caravana que sucumbira ao calor do deserto. E foi ali que Marco Pólo, exausto, se deitou para morrer.

"Espetacular vista da Montanha Bogdo Ula, denominada Ponto no Céu pelos chineses, a 1.900 metros de altitude. Faz parte da cadeia de Tianshuan que era vencida pelas caravanas

Marco Pólo não morreu, foi salvo por Kublai-Khan, o neto de Gengis-Khan, o grande conquistador que dominou a China, criando um vasto império que se estendia do Oceano Pacífico ao Rio Dnieper, na Rússia. Sob o seu domínio o país conheceu a mais completa tolerância religiosa. Quando conquistou o povo chinês, Gengis-Khan foi por sua vez conquistado pela cultura dos vencidos. Kublai-Khan devia muito mais às tradições culturais da China do que aos costumes dos seus bárbaros antepassados. Ele levou o mortalmente enfermo Marco Pólo para seu palácio e ele foi tratado pela sua filha, a bela Flor de Ouro.

Muitas histórias e lendas foram criadas em torno da rota da seda, tantas que seria preciso mais de um livro para contá-las. Com a descoberta das rotas marítimas, o comércio da seda e das especiarias passou a ser feito pelas caravelas e outros navios. Os caminhos da rota da seda foram sendo esquecidos através dos anos, até o completo abandono da maior via comercial da Ásia. Hoje a China está revitalizando a rota da seda e restaurando diversas cidades e monumentos do caminho. Visando também incentivar o turismo, o governo chinês autorizou empresas de turismo a formar grupos de viagens para "redescobrirem" os caminhos milenares da histórica rota da seda.

 

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