O Brasil Heróico de Pedro Américo
Por Monique Cardoso

Pedro Américo
Obra prima de Pedro Américo: Batalha do Avaí

Pedro Américo foi retratista, pintor decorativo, de batalhas, histórico e bíblico, gênero de sua predileção. Está evidente em suas obras a superioridade artística e o talento privilegiado. Seus trabalhos literários transcendem a ciência e a filosofia, sendo reconhecido como excelente romancista e poeta. A pele morena, o olhar expressivo, os cabelos pretos enfatizavam um jeito sereno e melancólico. Sua genialidade lhe acrescentava palmos de altura à sua estatura franzina, típica do homem nordestino.

Pedro Américo: "Paisagem do Chaco" de 1871, 1,98m x 2,40m, acervo do Museu Histórico Nacional

Importante documentarista dos acontecimentos heróicos de nossa história, Pedro Américo de Figueiredo e Melo saiu de Areias, cidade do interior da Paraíba onde nasceu em 1843 para seguir, ainda menino, como desenhista oficial na expedição do naturalista francês Louis-Jacques Brunet. Pertencente a uma família de artistas, desde os nove anos seu talento já era notável e, iniciar bem cedo uma carreira, aos 11 anos, foi apenas seu primeiro passo para uma vida de tantas idas e vindas. Depois de percorrer o sertão nordestino durante 20 meses - incluindo as províncias da Paraíba, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí - registrando aspectos relevantes e pitorescos da paisagem, fauna e flora, segue para o Rio de Janeiro. Ingressa no Colégio D. Pedro II e mais tarde na Academia Imperial de Belas Artes, indicado pelo próprio imperador, que encantou-se com o talento precoce expresso por seus desenhos.

Fausto e Margarida

Ao concluir o curso, então com 16 anos, reunia uma série de medalhas e o orgulho de ter ganho uma bolsa para estudar em Paris, concedida por D. Pedro II. Na Europa, obteve o diploma de Bacharel em Ciências Naturais após cinco anos de estudos na Universidade de Sorbonne. Na França também conquistou inúmeros prêmios na Escola de Belas Artes. A refutação que fez à "Vida de Jesus Cristo", de Ernesto Renan, lhe rendeu a benção de Pio IX e as insígnias da Ordem do Santo Sepulcro. Na cidade de Florença, que escolheu para fixar residência, realizou suas mais famosas pinturas. Suas obras primas são "A Batalha do Avaí" e "O Grito do Ipiranga".

Volta ao Rio de Janeiro em 1864 e após breve concurso, assume a cadeira de Desenho na Academia de Belas Artes, mérito claramente expresso pelo quadro "Sócrates afastando Alcibíades dos Braços do Vício". É desta época um belíssimo quadro seu, intitulado "A Carioca". Mas, as constantes viagens ao exterior não permitem que Pedro Américo desenvolva uma continuidade em seu trabalho na Academia. Durante sua nova estada na Europa, defendeu tese em Bruxelas e colou grau o título de Doutor em Ciências Naturais, no ano de 1868, sendo aprovado com louvor. A solene cerimônia, que contou com a presença do Cônsul do Brasil, foi posteriormente narrada por jornais belgas, dentre eles o Diário Oficial, o Eco do Parlamento e Independência Belga, por ter sido considerada um grande acontecimento no mundo científico da Bélgica.

Certamente, sua obra mais famosa é a longa série de quadros históricos e bélicos, que executou depois de 1870, quando retornou da Europa casado com a filha do cônsul do Brasil em Portugal. Até o ano de 1873 viveu seu período artístico mais fértil. A tela "Batalha do Campo Grande", que participou da Exposição Universal de Viena e hoje pertence ao Ministério da Guerra, é uma das executadas nesta época, assim como "Ataque da Ilha do Carvalho", "Ondina", retrato eqüestre do Duque de Caxias e retratos de D. Pedro I e D. Pedro II, feitos para o Senado. Em agosto de 1872 recebe encomenda do Conselheiro João Alfredo de grande quadro alusivo a um importante feito heróico de nossa história. Surge então "A Batalha do Avaí", que só foi concluído anos mais tarde, em Florença, onde foi exposto pela primeira vez durante as festividades do centenário de Michelangelo. A participação neste evento deu notoriedade internacional ao artista brasileiro Pedro Américo. Como fruto da fama, teve seu retrato - executado por ele mesmo - colocado pelo governo italiano entre os de Ingres e Flandrin, seus antigos mestres de Paris, na Galleria Nazzionale degli Uffizzi, uma das mais importantes do país.

É numerosa a lista de quadros pintados por Pedro Américo em Florença entre os anos de 1878 e 1882. Os mais importantes são "Batalha de San-Martino", "Moema", "O voto de Heloísa", "Jocabel levando ao Nilo seu filho Moisés", "A noite acompanhada do amor e do estudo", "Menina espanhola de 1600", entre outros. Segue para Paris e de lá volta ao Brasil, em 1886, quando vai à cidade de São Paulo para firmar contrato com o governo, para pintar uma tela comemorativa da Proclamação da Independência, que deveria ser concluída em três anos. Pintou a obra em Florença, onde a expôs em 1888, e entregou o trabalho pronto em São Paulo pouco mais de um ano depois da encomenda.

Suas idas e vindas à Europa não cessaram. Em 1889 já estava novamente na Itália, onde continuou suas obras, inclusive o quadro "Voltaire abençoando o neto de Franklin em nome de Deus e da Liberdade", que foi oferecido pelo artista ao governo brasileiro em sua última viagem ao Brasil. Em 1890, já velho e doente, é eleito deputado por seu estado, a Paraíba, mas não aceita o cargo e prefere continuar a viver de seu trabalho no Rio de Janeiro, como pintor e escritor. As moléstias, porém, o obrigam a voltar para a Europa. A melhora só veio em 1893, e Pedro Américo volta a pintar. Concluiu nesta época, o estudo histórico "Tiradentes esquartejado", que expôs no Rio, "A visão de Hamlet", "O Noviciado" e o busto muçulmano intitulado "Abdur Rohman".

Poucos anos depois, volta aos temas heróicos, como "Honra e Pátria" e a obra alegórica "Paz e Concórdia", seu último trabalho, que hoje ornamenta o peristilo do Palácio do Itamarati. Pedro Américo faleceu em Florença, na Itália, no ano de 1905, justamente na cidade que inspirou a riqueza de detalhes e a perfeição de suas telas. Está enterrado no monumento erguido pelo governo da Paraíba em sua homenagem em Areias, sua cidade natal.

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