O Rio de Pereira Passos


Polêmica. Essa era uma das principais características da administração de Pereira Passos no Rio de Janeiro, entre 1902 e 1906. Não se pode negar que o prefeito deu novos rumos à cidade, nem que promoveu, de fato, um verdadeiro "bota-abaixo", tirando do caminho tudo aquilo que impedia a concretização de seus inovadores projetos. Seu maior desafio era organizar a urbanização, sanear e civilizar a capital da recente República. Inspirado na Belle Époque, em quatro anos de trabalho transformou o Rio numa cidade cosmopolita.
Há cem anos, os cortiços deram lugar a um centro urbano moderno, com cara de capital. É verdade que o prefeito teve de enfrentar forte oposição, inclusive do Governo do Distrito Federal, para derrubar tantas construções, mas quase um milhão de habitantes viviam numa cidade sem transporte, sem escoamento de água, sem programas de saúde pública, sem segurança nas ruas. Sabemos que o prefeito não conseguiu eliminar nenhum destes problemas, mas deu o primeiro passo. A arquitetura e a estrutura urbanística de Paris foram a inspiração para as reformas. Entre as inúmeras obras realizadas nessa época estão a construção da Avenida Rio Branco, Beira Mar, Rodrigues Alves, Mem de Sá e de prédios que se impõem sobre nossos olhos, como a Biblioteca Nacional, o Teatro Municipal, além do Mourisco e do Palácio Monroe, que, infelizmente, não tiveram a mesma sorte e foram demolidos.

A fim de conseguir reordenar e aumentar a extensão da malha de circulação viária, o prefeito abriu uma série de ruas e alargou outras tantas. Para isso, grande quantidade de casas, comerciais e residenciais, foram derrubadas. Lamenta-se ainda hoje as perdas de valor arquitetônico e histórico, e até sentimental, para o povo do Rio mas, se ruas não tivessem sido alargadas naquela época, teria sido muito mais difícil fazê-lo depois. Pereira Passos inspecionava pessoalmente, e bem de perto, as obras da Avenida Beira Mar, que começou a ser aberta logo no início de seu governo e ia do centro da cidade até o Morro da Viúva. Para o prefeito, a abertura de avenidas litorâneas permitiria o acesso eficiente de uma extremidade a outra da cidade, um notável sistema que foi reforçado posteriormente pelos túneis.

Durante a realização do projeto fez-se necessário o desmonte do Morro de Santo Antônio para a obtenção de terra suficiente para os aterros. Construir a avenida sobre espaço roubado do mar já estava nos planos do prefeito, a fim de permitir os alargamentos posteriores, margem muito útil quando da construção do Aterro do Flamengo. O centro da cidade foi o local que sofreu as maiores modificações. Para a passagem da Avenida Mem de Sá, Pereira Passos mandou pôr abaixo todos os prédios paralelos aos Arcos da Lapa, a fim de permitir a liberação do tráfego que o prefeito visava construindo a avenida. Foi com mesma essa finalidade que ocorreu o desmonte do Morro do Senado.

Também precisou ser extinto o Largo de São Domingos, para a abertura da Avenida Passos, batismo que homenageia o prefeito. As melhorias atraíram muitos comerciantes, mas não conseguiram extinguir a prática do baixo meretrício na região da Praça Tiradentes, que perdura até nossos dias. A antiga Rua da Vala, atual Uruguaiana, precisou ser bastante alargada e aterrada durante a gestão Pereira Passos. Abrigava as melhores lojas do início do século, mas meio lado da rua veio abaixo durante as obras, concluídas em 1906. A área hoje pertence a um corredor cultural e ainda é possível ver, em muitas fachadas, a elegância neoclássica dos prédios comerciais.

A mudança mais evidente, e mais famosa no panorama do centro, surgiu com a abertura do Boulevard Avenida Central, ou Rio Branco, que começa na Praça Mauá e acaba na ligação com a Avenida Beira Mar. Foi inaugurada em 1905, mas a maioria dos prédios, quando da inauguração, possuíam somente as fachadas, que tinham de estar prontas junto com a avenida. Nela, ergueram-se a Biblioteca Nacional e a escola Nacional de Belas Artes, atual MNBA. Para a construção da escola o prefeito fez um corte no Morro do Castelo, a fim de assegurar uma largura de 33 metros para a avenida. Muitos acharam que seria larga em excesso, mas face aos estressantes engarrafamentos, consideramos hoje a largura da rua insuficiente. No final da avenida existia o largo da Mãe do Bispo, que deu lugar ao Teatro Municipal, que só ficou pronto em 1909.

Nem todas as obras, porém, estão aí, a olhos vistos. Uma das maiores preocupações de Pereira Passos era com a higiene e, para executar planos de saneamento básico contou com a ajuda e orientação de Oswaldo Cruz. Um dos episódios mais marcantes dessa empreitada foi a "Revolta da Vacina", em 1904. As pessoas temiam ser vacinadas e era preciso que os agentes de saúde fossem até a casa de todos acompanhados da polícia e isso gerou um grande descontentamento. A população removida dos cortiços, que já eram habitações precárias, começava a subir os morros para não se afastar tanto do centro. A ocupação desordenada deu início a favelização, que se tornou um problema insolúvel para os governantes posteriores, devido ao grande crescimento populacional.

Hoje, não podemos dizer que tudo foram acertos. Mas, um objetivo importante a ser atingido era o melhoramento dos serviços a cargo da prefeitura, como a instalação de uma rede pública de escolas primárias e a ampliação do atendimento médico gratuito à população. Ele deu o primeiro passo.
Fontes: Pereira Passos - Notas de Viagens e O Rio de Janeiro do Bota-Abaixo

Notas de Viagens

A fim de documentar os tempos que passou na Europa, após deixar a prefeitura, Pereira Passos enviava cartas ao amigo e diretor de obras em sua administração, Américo Rangel. Quando retornou ao Brasil, as reuniu na publicação Cartas a um amigo, lançada e distribuída aos amigos em 1913, ano da morte do engenheiro, e que hoje é um exemplar raro pertencente ao Museu da República, no Rio de Janeiro. O Arquivo Histórico do museu, através do trabalho de seus pesquisadores, reeditou essas cartas na obra Pereira Passos - Notas de Viagem, numa caprichada edição, e para tanto contou com o patrocínio da Auxiliadora Predial, a Apsa, empresa de administração de condomínios que, apoiou o projeto e fez a distribuição dos exemplares.

Enquanto a totalidade dos viajantes buscava o lazer e o descanso, o Dr. Passos não conseguia se comportar como um turista. Não só se preocupava com a beleza de um lugar, mas principalmente com sua estrutura, com a solidez de seus prédios, o calçamento de suas ruas, a qualidade da água, o sistema de transporte, a iluminação pública. Sempre observava tudo com o olhar atento e preciso do engenheiro. E fazia comparações com o Rio de Janeiro.

O livro nos conta curiosidades observadas pelo engenheiro em todo o mundo, como as pirâmides do Egito e a Esfinge, grandes obras de engenharia da antiguidade. Tais relíquias haviam sido descobertas a pouco, em 1900 e para visitá-las era preciso autorização especial do governo. Em Viena e Budapeste, elogia o sistema tramway, de trilhos eletrificados e o calçamento de asfalto nas ruas. Fala, nas cartas, da epidemia de cólera em Wiesbaden, Alemanha, que só fora elimina por uma limpeza geral bastante rigorosa e pela purificação da água, que passava por filtros, antes da distribuição. Para quem o criticou, manda recado: para ampliação do Porto de Hamburgo foi necessária a demolição de quarteirões inteiros, que abrigavam mais de 30 mil habitantes.

Em Notas de Viagens são revelados diversos aspectos da personalidade de Pereira Passos. Ao observar os lugares por onde passou, procurava sempre ter uma visão técnica, de forma completa e precisa, descrevendo tudo de maneira sintética, enxuta e informativa. Todas essas comparações com o Brasil e seus problemas eram uma tentativa de alertar a sociedade brasileira de seu atraso.

Avenida Central antes das obras

Avenida Central depois das obras

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