A Pintura Brasileira


"Moema", de 1866, obra de Victor Meirelles. Pertence ao acervo do MASP e mede 1,29 x 1,90 m.

Não foi por acaso que, antes de escrevermos esta matéria e outras que virão a seguir sobre a pintura no Brasil, publicamos os artigos sobre Frans Post e Albert Eckhout com o título "Imagens do Brasil Holandês" (nas edições de A Relíquia nºs 42 e 43). Estes dois artistas foram os primeiros a retratarem nosso país.

Depois de Post e Eckhout, nada importante aconteceu na pintura brasileira até o início do século XIX. Antes deles, quando os portugueses desembarcaram no Brasil, não encontraram civilizações indígenas organizadas como os espanhóis acharam no Peru (Incas) e no México (Astecas). O nativo tupiniquim não possuía tradição artística, exceto algumas habilidades no trançado e na cerâmica.

Lasar Segall - "Paisagem Brasileira", óleo sobre tela medindo 64x54 cm, com data de 1925. Acervo do Museu Segall - São Paulo.

As riquezas da Bahia, os engenhos de açúcar em Pernambuco e o ouro de Minas Gerais propiciaram os primeiros movimentos artísticos, principalmente na arquitetura e na escultura, baseados nos estilos europeus, destacando-se Frei Agostinho da Piedade (Séc. XVII) e Aleijadinho (Séc. XVIII). A pintura, até o final do século XVIII, existia apenas em função das encomendas das igrejas, feitas por artistas autodidatas. Deste período se encontram pinturas que reproduziam gravuras religiosas da Europa, principalmente da Itália e da Espanha, que atendiam à necessidade de ostentação da aristocracia e do clero. Eram, na sua maioria, composições barrocas que possuíam movimento e cores fortes, com a inevitável emotividade do brasileiro. Algumas dessas pinturas, que revelam falso caráter erudito, tinham boa qualidade. Esse estilo, se é que podemos chamá-lo assim, foi interrompido com a chegada da Missão Artística Francesa, em 1816.

Alberto da Veiga Guignard - "Ouro Preto", painel com 60x100 cm, datado 1950, acervo do Museu de Arte de São Paulo.

Com a mudança da Corte portuguesa para o Brasil, descobriu-se a necessidade do país possuir uma Escola de Ciências, Artes e Ofícios, para o aprendizado dos talentos nacionais. A sugestão partiu do Conde da Barca, ministro de Dom João VI e coube ao Marquês de Marialva, embaixador do Reino na França, organizar uma missão artística de mestres franceses para ensinarem na escola brasileira. O secretário da Academia de Belas Artes do Instituto da França, Joaquim Lebreton, além de chefiar a missão, foi o responsável também pela seleção dos artistas. Foi assim que desembarcaram aqui, além de Lebreton, os pintores Nicolas Antoine Taunay, Auguste Marie Taunay (escultor) e Jean Baptiste Debret, entre outros. Todos os artistas da missão eram Neoclássicos ou Acadêmicos. O Brasil passou então a ter uma pintura altamente intelectualizada, que reprimia o sentimento e a imaginação, longe do temperamento e característica nacional. O fato é que a pintura brasileira saiu do claustro religioso e acabaram-se as produções barrocas dos artistas autodidatas, surgindo uma arte popular paralela.

Novos Estilos

Durante todo o século os pintores brasileiros seguiram os estilos de arte herdados da missão, também influenciados pelo ensino oficial da Escola de Artes de um Brasil em formação econômica e cultural.

Enquanto isso, na Europa, Paris tinha substituído Roma como Capital das Artes, o estilo Neoclássico perdendo sua força cada vez mais. Na segunda metade do século XIX, diversos movimentos artísticos revolucionários surgiram na França, alguns buscando inspiração nas técnicas pré-rafaelistas, que embora imperfeita, continha uma linguagem afetiva abandonada pelo neoclassicismo. Surge então o Romantismo, que além de buscar afetividade, passou a valorizar as características pessoais do pintor e dar maior importância às cores. Se contrapondo ao Romantismo, aparecem o Realismo, mais voltado para cenas da vida cotidiana; o Impressionismo (as cores seguindo as variações de luz); o Cézanismo, baseado em elementos geométricos e o Expressionismo com toda a sua emotividade.

Mas, enquanto o neoclassicismo na Europa sofria as influências desses movimentos, no Brasil a pintura ainda estava presa às regras rígidas da Missão de 1816. Seguiam firmes nesse estilo os pintores Victor Meirelles e Pedro Américo, entre outros. Só no final do século XIX surgiram artistas dispostos a romper a barreira do academismo, destacando-se Almeida Júnior e Pedro Weingartner, pouco ainda para livrar a pintura brasileira das convenções rígidas do academismo europeu.
O Brasil republicano viu surgir três grandes pintores que acompanharam os movimentos de vanguarda da Europa e que conseguiram passar algo novo em suas telas: Eliseu Visconti, influenciado pelo impressionismo; Antônio Parreiras, que mesmo sem abandonar o Academismo se aproxima do Modernismo e João Baptista Castagneto com suas marinhas libertadas do formalismo acadêmico.

A Semana de Arte Moderna

O pintor russo Lasar Segall, em março de 1913, foi o responsável, com seus quadros expressionistas, pela primeira exposição de arte moderna no Brasil. A mostra aconteceu em São Paulo e não teve sua importância reconhecida, passando quase despercebida. Também na capital paulista, em 1917, Anita Malfatti organiza uma exposição que, ao contrário da mostra de Segall, provocou fortes reações, se tornando um marco no processo de renovação da pintura brasileira. Anita, ao lado de outros artistas e intelectuais, como Oswald de Andrade, ajudou a divulgar as novas expressões de arte do velho continente, o que preparou o terreno para a grande revolução artística de 1922.

A Semana de Arte Moderna de São Paulo, em fevereiro de 1922, foi a mais poderosa manifestação de modernização artística no Brasil. Organizada com o apoio da aristocracia paulista, o evento acabou escandalizando os próprios patrocinadores. Todas as manifestações artísticas da Semana teve em comum o fato de se opor completamente ao Academismo, criando a base para uma arte verdadeiramente brasileira. Entretanto, a Semana não teve seu real significado entendido de imediato, provocando protestos, vaias e terminou com os salões vazios. Entre os pintores que participaram da Semana, além de Anita Mafaltti estavam Di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro, John Graz e Zina Aita, entre outros.

Os modernistas brasileiros, cada vez mais numerosos, sentindo a necessidade de esclarecer mais os objetivos estéticos, criando uma arte mais brasileira, organizaram dois outros movimentos, ambos tão importantes quanto a Semana de Arte Moderna: Pau Brasil, em 1924, e Antropofagia, em 1928. A pintora Tarsila do Amaral participou do Pau Brasil, acentuando um estilo de pintura livre do Academismo e outros estilos tradicionais, uma pintura mais colorida, sem muito jogo de luz, mais sincera, mais brasileira, com um toque de surrealismo. Foi a obra "O Abaporu" (Antropófago) a responsável pelo movimento Antropofágico criado por Oswald de Andrade, Alcântara Machado e Raul Bopp.
O fato desses movimentos de vanguarda acontecerem em São Paulo e não no Rio de Janeiro, se explica pela existência, na então capital do Brasil, da Escola de Belas Artes, da Academia Brasileira de Letras e outros estabelecimentos tradicionais, assim como pela presença do poder político que valorizava e comprava as obras em estilo acadêmico mais a gosto da população carioca. Ao contrário, São Paulo, uma cidade mais cosmopolita e recebendo influência dos imigrantes e suas variadas culturas, uma cidade em processo de industrialização e mais aberta às novas manifestações artísticas vindas da Europa, reunia todas as condições para ser o berço do Modernismo.

O Modernismo no Rio

Antes desse movimento atingir o Rio, Tarsila do Amaral fez uma exposição em São Paulo e outra na capital carioca, em 1929, provocando reações contrárias. Em 1931, o arquiteto Lúcio Costa organiza a primeira mostra coletiva com artistas modernos no Rio de Janeiro. Logo depois, em 1932, é fundado em São Paulo o Clube dos Artistas Modernos, tendo à frente Flávio de Carvalho e Antônio Gomide. Juntando-se aos pioneiros da década de 20, destacam-se Aldo Bonadei, Alfredo Volpi, Clóvis Graciano, Quirino da Silva, Cícero Dias, Alberto da Veiga Guignard, Carlos Prado, Yolanda Mohaly, Waldemar da Costa, etc. No Rio, sobressaem-se Cândido Portinari, Iberê Camargo, Paulo Werneck, Ismael Néry, entre outros. Já possuindo personalidade própria, a pintura brasileira vê surgir outros nomes como José Pancetti, Djanira, Milton da Costa, Manuel Martins e Rebôlo Gonçalves.

A pintura no Brasil entrou em um período de abundância com qualidade, com vários acontecimentos contribuindo para isso: a criação do Salão de Arte Moderna em 1940, a instituição dos prêmios de viagens, as construções dos Museus de Arte Moderna de São Paulo e do Rio, etc. Nos anos 50, finalmente o Abstracionismo atinge as artes plásticas brasileiras, libertando a pintura da finalidade representativa. Pontificam nesse estilo Cícero Dias, Milton da Costa, Volpi, Antônio Bandeira, Lygia Clark, Ivan Serpa, Manabu Mabe, Maria Polo, Tomie Ohtake e outros. Seguindo o Abstracionismo, vem o Concretismo com Serpa, Waldemar Cordeiro, Lygia Clark e depois o Figurativismo Com Carybé, Scliar, Carlos Bastos, etc.

A história da pintura brasileira não pode ser toda contada aqui, de uma só vez, como também não acabou... ela continua sendo feita a cada dia. Os artistas atuais continuam experimentando novas e velhas técnicas e estilos, inclusive os acadêmicos, buscando sempre novos caminhos, tendo como característica a permanente instabilidade, uma das características desta arte que possui a idade do homem.

Na próxima edição "Os Pintores Viajantes" e a seguir, nas edições futuras, os pintores brasileiros.

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